sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Primeiras Vezes

*Escrito em meados do halloween de 2014.

"Pra tudo se tem a sua primeira vez". - Era o que ele mais me disse em algumas horas, seguidas de elogios não muito pertinentes de colocar aqui. Mas vamos começar do início. Uma sexta-feira como todas as outras, ressalva que nessa, eu iria sair! E pra um lugar diferente.
O metrô era o mesmo da faculdade, a chuva também típica da cidade e o bar, lotado. Bar? É, essa chuva vai estragar meu cabelo, por quê não começar um esquenta básico? Desce uma skol pra mim, por favor.
Quantos homens... Meu Deus. Quantos olhares horrivelmente avançados pra mim... Quanta falsa gentileza, o garçom me servindo, olhando minhas pernas com cuidado pra não derramar cerveja pra fora da taça. Os caras do balcão, os caras das mesinhas lá fora e também os que estavam de pé. Cumprimentos sem nem mesmo saber quem era, ué, vou responder porque sou educada. Um deles se ofereceu a me levar até parte do caminho. Acabei a cerveja, deu um medinho por eu ter aceitado... Ele tinha namorada e estava indo pra casa dela! Ufa.
Cheguei na rua e meti um louco como de costume com o celular. É patético mas eu faço, sabe, pegar o celular e ficar conversando com o nada, com alguém da sua cabeça, aquele melhor amigo perfeito que sempre fura com você, fala que vai e nunca vem, exatamente porque não existe.
Entrei na fila, já levemente alegre, deixo de ser tímida e fico sociável... Converso com algumas pessoas, digo o meu nome e elogio o que tiver pra elogiar. Sei lá, gosto de falar bem e principalmente de ter o que falar. Falamos sobre meu cabelo, sobre meus olhos, sobre a cartola que eu comprei, sobre a marca da tinta que eu uso, sobre política, sobre homens cabeludos (que eu não gosto) e barbados (que eu amo). Entramos, não pediram meu RG e ainda o ofereci. Tudo certo... Até ganhei um brinde, um mini-caldeirão de plástico preto, tão fofo e cheio de chicletes plutonita com aquele ácido sulfúrico que borbulha na língua, uma delícia. Masquei os chicletes, sequei uma caipirinha e fui pegar meu Jägermeister, que nem o nome eu sei dizer, nem sóbria ou bêbada. Bebi, adorei, quase morri só de pôr em meus lábios. Eita.
Fiquei meia hora enrolando com a mina que queria beber e não tinha grana... Eu ia beber cerveja, ela não queria, então problema dela. Não queria fazer barriga porque ia á academia... Minha barriga tá aqui, ela não sai mesmo, então deixa. Até parece que eu ia largar minha breja por causa do corpo, que se foda o corpo. Finalmente um doido lá apareceu e ela pediu um drink gay... Não me lembro o nome mas tinha suco, vodka e campari. Tava muito gostoso, isso não podíamos negar. Ela ficou meio bravinha pois eu matei o jegamaista e não lhe dei o ultimo gole. Vai se foder, né?
Pra que o estresse? Vamos pra pista. Oomph! Dancei freneticamente "Der Neue Gott" como se não houvesse nada e nem ninguém me observando. A carteira na mão incomodava um pouco mas era o de menos. Eu não me lembro exatamente da sequência dos fatos exatamente, mas eu fui e voltei pra lá umas três vezes entre idas ao banheiro e ao bar. Até que trombei sem querer um cara bem, bem, bem cheiroso. E ainda mais a galerinha hesitou até demais quando nos olhamos e somente isso foi o bastante pra iniciar o que seria a melhor canseira do ano.
Fui pra perto dele e ele me envolveu em seus braços. Me vi logo ilhada, abraçada por um aroma amadeirado que transbordava masculinidade. Fazia tempo que não sentia esse tipo de cheiro peculiar. Os quadris se completavam, quando não pra frente, pra trás, pros lados, colados. A barba arrasava meu pescoço e não demorou muito pra que eu me entregasse... Barba, cheiro, os braços, ainda que finos, aconchegantes. A boca... Meus Deus, que boca. Maldita permissão que dera involuntariamente, dessa de correr do meu pescoço pra orelha, numa perversidade quase diabólica, sim! Ele sabia e muito bem o que estava fazendo.
E me encostando nas caixas de som, - detalhe que a bebedeira mínima já não deu a mínima se eu poderia ou não ficar surda, - levantou minha saia e tirou a meia calça do caminho. Dá-lhe mãos, dedos, gemidos como consequência. E quanto mais gemia, mais o desgraçado o fazia... Que inferno. Vamos pro carro! Mas espera, nem vi a sua cara direito... Espera aí. - E agarrei sua cabeça como se fosse uma bola de futebol, contemplada para a luz, observei. A barba, muitos traços no rosto, um olhar embriagado e um sorriso de achar graça na mina bêbada que não enxergava muita coisa. Quantos anos vocês tem? Trinta e cinco. Gozei.
Tentei estabelecer um diálogo rápido. Sempre brinquei com alguns amigos próximos e até mesmo com a minha mãe de que, eu nem pra prostituta serviria. Eu gosto de criar um pequeno vínculo... Saber um pouco daquele que daqui há alguns minutos vai tirar minha roupa e usar dos buracos do meu corpo, nada mais justo. Ele era taxista! Eu ri tanto quando vi o taxímetro e falei, pensando alto demais "um taxista gótico". Claro, super estranho. Gosta de Velvet Revolver, ou "guns sem o Axl" como ele mesmo definiu. "Você costuma trazer garotas pro seu carro?" - Perguntei, lesada. Ao dizer que não, eu retruquei que também não tinha o costume de entrar no carro de estranhos. E aquela resposta veio, bobo, me disse que "pra tudo tinha sua primeira vez".
Deixou a Kiss FM tocando no rádio do carro. Olhou pra mim depois de afrouxar o cinto das calças, como se esperasse que eu fizesse o mesmo. Desarmei o coturno (deu um trabalhão...), tirei a meia calça e o colete... O chapéu, cartola, seja lá que diabo eu comprei pra usar, depois de quase perdê-lo, deixei-o em cima do porta-luvas. Ele veio firmemente pra cima de mim, abaixou o banco e abriu minhas pernas. Que facilidade... Nunca vi alguém tão ágil, sim, pois eu gastava tempo só pra começar e ele não, mais direto ao ponto impossível. Não vi minhas unhas cravarem em suas costas, mas me dei conta de quanto eu pudia tê-lo machucado quando ele tomou minhas mãos e as posicionou atrás do encosto do banco.
Eu achava incrível a sua mobilidade... De como fazia acrobacias infinitas pra caber dentro do carro e dentro de mim. E nessas de me meter a acrobata, acabei fodendo o joelho... Banco de couro, carro quase de bacana, uma educação fora dos nossos estereótipos estabelecidos pra quem a gente conhece da zona leste de São Paulo. E lá se foram minhas energias. Gastei tudo o que tinha pra gastar, a bebedeira, suadeira, o prazer, ah, e sempre a adrenalina de correr riscos, de se entregar pra um estranho qualquer e estar á mercê de que, ele pode muito bem á qualquer instante parar num beco e te obrigar á descer... Acabou! Ele teve a educação de me deixar no metrô ás 3h40 da manhã, não sem antes estacionar (o quê? ele estacionou? que medo!) e nos deixar de frente pra um muro que escondia o matagal. Onde estávamos? Não sei, só sei que gastei a mandíbula mais uns dez minutos antes de sair e ainda recebi um "tchau, flor" de consolo. Porra, nem vai me dar seu telefone?
Aonde é que eu vou arrumar um taxista gótico, um homem experiente em número, gênero e grau, cheiroso e magricela, com vários centímetros? Digo, de altura, por favor... Aonde?
Pois bem, acredito que hajam primeiras vezes mas, coisas boas desse jeito, somente uma única vez. Assim como há primeiras pessoas, primeiros carros, primeiras fodas e primeiras boas fodas. Vulgar demais da minha parte ou não, também é a primeira vez que falo abertamente disso. Compartilho o que é bom, pra mim, e que pode ser entretenimento pra vocês. Inspirador até, quem sabe, você não busquem mais primeiras vezes?
Aquela parada de se perguntar "quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez" é real. Já se perguntou? Eu não paro pra fazer esse tipo de coisa não, digo, me perguntar. Vou lá e faço e já era. Já tentou isso. Pois tente! Pra tudo há uma primeira vez. E dessas, primeiras ações, primeiros conhecimentos, que geram outros primeiros casos, assim como não é a primeira vez que eu te enrolo tentando acabar um texto.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ingratidão Mais-do-Mesmo Diferente

Eu sou aquele tipo de pessoa que se cansa muito fácil das coisa, enjoa muito rápido das pessoas e, nada tá bom pra mim. Nunca é o suficiente. E eu juro que tento lutar, todos os dias, pra reverter esse tipo de situação.
Sabe, crescer é um saco. Eu estou odiando cada vez mais, ter que segurar minhas broncas, ter minhas responsabilidades... Tô me odiando cada vez mais. Sim, pois sou algo politicamente correto, quase irritante de tão certinha. Sim! Eu sou. E as pessoas cada vez mais acham que eu estou ficando louca. De certa forma, isso me assusta... Tá ligado como funciona: algo que é dito muitas vezes deve ser verdade, e se não é, acaba se tornando.
Eu ando cansada. Na verdade, ando sofrendo por antecedência, só por imaginar que saco vai ser minha vida: trabalho, faculdade, casa, trabalho, faculdade, casa (repete por 6 vezes na semana), folgas para: curso de gestão, curso de filosofia, aulas de canto, aulas de boxe. E voltamos ao trabalho. Caralho!
Eu sinto que meu verdadeiro problema não é a ansiedade mas, sim o pessimismo. Sabe por quê eu fico estressada em pensar na minha rotina? Porque eu sei que vai dar tudo errado e não vai adiantar de nada. Vai dar errado eu não sei porquê, mas vai. Pelo menos é o que a minha cabeça me grita. E sabe além do mais, por quê eu não fico feliz com a presença de algumas pessoas? Porque já sei que vai dar errado em alguma hora, muito próxima. Eu não posso me apaixonar, não posso tê-lo como amigos, não posso criar expectativa alguma, até porquê tá tudo muito claro: sem compromisso, sem namoro, sem nada.
É cansativo, pensar. E eu estou exausta. Não tô afim de nada... Não quero me decepcionar, como inúmero vezes. Sinto que meu estoque de paciência ou afeto, possa ser comparado á uma loja de perfumes, em que muitas pessoas passaram pra saquear e quebrar tudo com tacos de beisebol. Sinto isso dentro de mim, uma bagunça eterna, pior do que meu quarto pois, não sei por onde começar para arrumá-los.
Eu penso muito no que iria dizer caso eu me matasse. Sim, se matar tem um porquê e eu gostaria muito que esse "porquê" fosse dito, lembrado e considerado. É um problema meu, se eu vou ou não queimar no inferno, se é que ele existe. Enfim... Sinto vontades estranhas, já tem uns tempos aí.
Queria mudar meu nome, queria ter uma vida dupla. Queria ter dois empregos, trabalhar de madrugada... Seria perfeito pra mim. Queria dormir de dia, não queria mais nem saber de que cor é o sol. Queria parar de fumar e de beber. Queria ter meus cabelos longos e vermelhos de volta... Queria emagrecer e queria parar de comer tanto. Quero fazer todos esses cursos, mas é só pra ter um currículo, pra ter trabalho e ter dinheiro. Mas que merda! Será que tudo vira em volta do dinheiro? do bom currículo, do status social que você exerce sendo um bom cidadão? Aparentemente sim.
Por um lado, até que esqueci deixar pra trás as desavenças e as pessoas, o que me fazia mal. Mas é só o começo. Tem muita gente ainda que, eu preciso deletar de uma vez, começar a ignorar, sei lá. Mas são muitas.
Me diz, como eu posso não sofrer por antecedência, com uma pessoa chamada "pai", me dizendo que vai infernizar minha vida a partir de segunda feira? Ele me disse isso numa sexta á noite! Porra! Pra quê? Ele estava bêbado... ok. Mas isso explica um pouco as lágrimas que saem involuntariamente e minha perna direita que não pára de balançar. Fora os longos suspiros que dou antes de começar um novo parágrafo de reclamações.
Eu cheguei a comentar com ele, meu pai, sobre o  evento que participei na minha escola de filosofia. Acho que nem cheguei a escrever disso. Não sobre as palestras incríveis mas, sobre a minha experiência pessoal no acampamento. Foi ruim, como sempre. Pois, como sempre, eu esperei algo bom e isso não veio. Como sempre criei expectativas e me decepcionei, como sempre. Achei que finalmente eu me sentiria em casa, com gente que gostasse de falar das coisas que eu conhecia, sobre papos cabeça, sobre coisas interessantes e emocionantes... Mas lá estava eu, comendo maçã em volta da piscina, cantarolando canções britânicas. Sozinha. Pensando em nada... Tendo uma paz triste e melancólica. Ou na cama, com uma lanterna enfiada no queixo, virada pras páginas do meu livro favorito, enquanto se preparavam pra uma caminhada noturna, a qual eu fui convidada mas, não quis ir. Não eram só os insetos... Eram as pessoas. O meu não contato com elas... Isso me incomoda demais. Incomoda ainda mais, não saber como parar com isso. Simplesmente ser, e aceitar ser, uma antissocial. O óleo da água. O joio do trigo.
Uma vez me peguei pensando em escrever uma tese ou fazer mesmo um estudo, uma pesquisa, algo assim, pra poder falar, dessa coisa da gente não aceitar mais nada das pessoas que "devem" pra nós. Um exemplo master: Minha mãe. Eu não quero mais o carinho dela... Eu simplesmente não consigo aceitar, é uma rejeição automática, para seus beijos e palavras doces. Eu penso "pára com isso, que saco!" - E é um tempo perdido. Agora, imagine de quantas pessoas eu sinto essa mesma rejeição, quase um nojo... Pois é.
Certa vez eu tive uma lâmpada na cabeça enquanto conversava com Marina. "E se a gente não fosse egoísta, como seriam as coisas?" pois, todos somos... Eu, ela, Thiago, Victor... Minha mãe. Meu pai... Sei lá, todo mundo. Eu tenho moral pra falar de egoísmo pois, eu sou sua personificação. Nunca me vi tão apaixonada por pessoas como sou hoje. Lógico, hoje eu não tenho mais saco pra fazer cartinhas de amor e declarações bonitas, fora que, macaco velho não mete a mão em cumbuca e, eu já sei aonde é o meu lugar: amante. Ou só uma aí, de várias, de cinco ou mais. A mais gostosa, a mais tesuda, pode ser... Disso eu não duvido, mas, do que adianta? Aliás, e se desse certo, exatamente como eu queria? Ah... Eu teria que escolher. Qual dos três atualmente me levaria pra casa num dia de chuva? Qual dos três levariam meu coração e colocariam uma aliança no meu dedo? Qual deles viria aqui almoçar com meu pai, falar dos planos de vida deles e aturar meu pai contando a sua história de vida toda? Eu sei, nenhum. Não é porquê eu não quero, é por dois motivos: Primeiro que, nenhum deles quer nada, absolutamente nada comigo. Outra que, eu sinceramente não saberia escolher.
Num mata-mata, um sairia fácil... Sabe, critérios de eliminação? Tipo isso. As pessoas vivem inventando desculpas pra dizer que não podem segurar um relacionamento. Claro, depende de muitas coisas. Assim como eu disse pra Marina (eu digo muitas coisa pra ela, ela me atura...), uma frase de um velho amigo que tive, "você não pode ajudar aos outros se não ajudar você mesmo". Porra, eu vou morrer sozinha pelo vista, não é? Eu me odeio, isso é fato consumado. E não tem o que se comentar disso. Não é porquê passei minha infância toda ouvindo coisas a respeito do meu corpo, apelidos como "baleia assassina" ou "saco de areia". Não é porquê todas, exatamente todas as minhas paixões foram um desastre pra minha autoestima. O buraco é mais embaixo e essa coisa infantil de botar a culpa nas coisas que os outros me fizeram, já tá batido. O problema é meu. O problema sou eu.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Sobre os Rótulos e as Velhas-Novas Revoltas

Eu não sou planta pra criar raízes. Quero criar um legado na literatura.
Quero saber pra que porra eu vim ao mundo.
Eu não vim só pra sofrer por amor, pra ser tratada feito lixo, feito uma vagina descartável.
Eu não vim pra seguir essas merdas de padrões, não quero cabelo liso, não quero corpo magro.
Eu quero é que todo mundo se foda, inclusive ou, ainda mais, principalmente, os que dizem ser meus amigos e não fazem merda alguma por mim.
Quero respirar sem aparelhos. Quero respirar sem sentir a garganta presa e o nariz entupido.
Quero comer o que me der vontade, morrer de gula, de alcoolismo e tabagismo.
Sabe? Quero dormir até três horas da tarde sem ter um único filho da puta, falando que o dia tá lindo lá fora, "sai dessa cama", foda-se a porra do sol. Eu odeio calor, odeio a luz, odeio as pessoas de dia.
Quero viver de noite. Ser um morcego, um vampiro, um demônio. Me aliar ás trevas e me alimentar da maldade do olhar dos outros, dessa malícia nos lábios úmidos. Dos chupões nas línguas desconhecidas, ao entrar nos carros de gente que sequer conheço.
Quero me vestir do jeito que eu achar melhor. Transar com meninos e meninas, ter cabelo curto com gel e passar batom vermelho, sem ter que ficar explicando que eu sou um homem. Eu sou mulher, por fora, mas sou um homem lá dentro. Tive que vir pra cá como menina, pra poder aprender mais coisas que não fiz nas vidas passadas.
Quero ficar sozinha, apenas pela minha capacidade de amar quem me faz mal. É, fico sozinho. Vago numa boate ou outra, entro no bar e bebo quantas eu puder pagar. Como aqueles petiscos escrotos, converso com os velhos babões e recebo cantada dos balconistas. Fumo dois cigarros um atrás do outro porquê eu quero morrer. Minha vida é sem futuro, sem graça, sem afeto, sem esperança.
Eu vivo é de ansiedade e curiosidade, principalmente. Eu vivo de achar que vou publicar um livro. Eu vivo de achar que posso ser feliz sozinha. Vivo de achismos, sem certeza de nada, só sabendo de que eu não sei de nada.
Eu tenho nomes. Marcela, Beatriz, Beatz Prince, Diana Lihn. Não bastava ser Beatriz, tinha que ser Bianca, também. Sabe, escrevo assinando outra coisa pois, Beatriz não é isso. Beatriz é a personagem louca de uma história dramática e suja, besteirol até. Diana Lihn escreve essa merda toda e a trilha sonora é por conta da Prince. Marcela é quem conversa com ela. É a Beatriz melhor resolvida, que estuda filosofia, querendo botar a cabeça dessa filha da puta no lugar. Beatriz é o que eu não quero mais ser... Que se mata a cada gole e tragada, e ao imaginar o sangue correndo sob os cortes, cicatrizes.
Olhos verdes secos, que não sabem mais chorar, de olheiras lindas. Cabelo sem cor, enrolado, armado, solto, bagunçado igual meu quarto, igual minha cabeça, igual meu coração e minha vida. Oitenta e poucos quilos de raiva, fúria, revolta, libido e loucura. Eu não tive pais. Eu não tive paz. Desde quando eu nasci.
Sabe o que cabe dentro de tanta raiva? Medo. Já viu? Os bichos que se sentem encurralados, atacam, maioria deles, pelo menos. Sou um bicho. Uma bicha. Vagabunda, vadia, se atraca sem dó pro cara que namora há mil anos e não larga da corna. "Ele vai fazer o mesmo com você". "Ele nunca vai te assumir". "Ele não gosta de você como ele diz". - Ás vezes me confundo, de quem é que está dizendo isso: Eu ou os outros?
Trabalho pra ganhar a porra do meu pão. Pra gastar nas baladas, pra comprar perfume, creme hidratante, lápis de olho, rímel, coturno, roupa preta e batom vermelho. Gastar em restaurantes, com comida chinesa em casa, feijoada aos domingos e miojo no resto do mês. Gasto com um ônibus que viaja todos os dias, de uma cidade pra outra, pra chegar no meu auge. Esse centro, de energias loucas e potentes... São Paulo! Caralho, é um orgasmo falar teu nome!
Tô me preparando, não pra sair de casa mas, pra ouvir o choro e o dengo do meu pai. Eu não queria ver ou imaginar isso... Mas vai ser (de novo) doloroso ouvir coisas do tipo "quero ver quando voltar com o rabo entre as pernas pedindo arrego". "Você acha que o mundo lá fora é legal, que essa liberdade é linda." "Você não sabe viver sem mim, é uma ridícula que não tem faculdade acabada, que não sabe o que quer da vida e só quer fazer o que te dá na telha." "Você não pensa, depois que se fode, acha ruim e culpa Deus e o mundo". - Ás vezes me confundo, quem é que tá me julgando: Eu ou meu pai?
Estou vivenciando aquele tipo de capítulo chato do livro, porém essencial para o entendimento e desenvolvimento da história. Aquele capítulo demorado, monótono em que nada acontece ou, está previsível demais: Você vai se foder de novo!
E sabe... É tão previsível! Por mim mesma, porra! Eu é quem estou escrevendo esse caralho! O que é que você acha que vai dar, amando alguém que não te ama, iludindo gente legal e suportando coisas insuportáveis? Porra, tu vai enlouquecer se não mudar essa vida, ou essa linha. Pára de achar que você tem que suportar essa merda toda, calada! Tu não tem que ouvir desaforo de ninguém, não tem que aguentar uma gorda maquiada, filha de uma puta, falando histérica com você sobre meio litro de leite fervido. Você não tem que correr, apressar as coisas pra vagabunda que tem dois filhos de pais presos, voltar logo pra casa. Quer saber? Tomaram que leiam essa porra e me processem, ou me batam da empresa pra fora. Manda teus namorados traficantes virem me dar um cassete, quem sabe até rola um estupro, pra aproveitar e meter na "sapatona" que é mais gostosa que vocês, não é verdade?
Eu quero respirar. Me sinto morta. Cadê a porra dos meus sonhos? Você acredita que eu disse que não quero mais cantar? Sim, mas já faz tempo. Eu disse que talvez não queria mais subir aos palcos mas, queria publicar minhas obras. É cada uma que eu escuto... As vozes na minha cabeça e mais as pessoas malditas de fora. Você não tem absolutamente nada a ver com a minha vida. Se a de vocês é puramente má resolvida, vão se foder, de verdade. Vão dar o cu, dar uma gozada, é isso o que falta na merda de vida de vocês, ao invés de ficar me infernizando com esse medo d'eu ser melhor que vocês e ganhar por isso, financeiramente e experientemente falando.
Paralelismo. Viver num mundo e depois em outro? Depois que comecei a estudar filosofia, senti o quanto minha máscara pesava. Achava até que já tinha me despido dela mas, na verdade nunca a tirei. Ou será que eu sou mesmo aquela menina tímida que não conversa com ninguém, come maçãs na beira da piscina com um vestido preto, se equilibrando pra não cair das guias envolta a quadra? Tenho um ar de medrosa, inteligente e observadora, mas o que ninguém imagina é o quanto de peito que eu tenho pra levantar todo dia dessa porra de cama e botar a cara pra fora; ninguém imagina o que é estar á sombra de um cara que fez duas faculdades, sendo uma de graça, sendo que eu mal fiz uma, não estudei, tenho que pagar quatro mil e quinhentos reais de qualquer forma e já tô trocando de curso. Vai bater palma pra mim ou me atirar pedras? Faz o que você quiser, pouco me importa. Eu já tô fudida e não é a sua alegria em cima da minha desgraça que vai me desgastar.
Acho que tá perto aquela hora que finalmente eu não vou mais me importar em amar pessoas que nem sabem o que eu faço diariamente. Daquela que, quando eu ligo, dizem "nossa, você não gosta mais de mim, me esqueceu, o que é que eu te fiz?" - Porra, é claro, estão todos mais-que acostumados em ver a otária de arrastando e implorando um mínimo de atenção.
Tô ocupada demais pensando em mim. E o que eu digo pra você que se encontra na mesma situação que eu (sem amigos, sem pais, sem grana, sem futuro e sem fé), simplesmente meta a cara e faça qualquer coisa pra se manter de pé. Não vire um verme como seus conhecidos, não vire um ingrato feito os teus "amigos" e nem fique revoltado como eu, mas viva. Tô falando de respirar sem sentir dor, sem sentir os olhos queimarem com aquela vontade de chorar o que não tem pra chorar. Tô falando de ouvir uma música e cantá-la gritando, e estar pouco se fodendo se é uma música conhecida ou a b-side da sua banda favorita. Tô falando de ser você.
Viver numa sociedade onde ter liberdade de expressão interfere gravemente entre a vitimação e a violência verbal. No mesmo tempo que eu te agrido, eu sou também a coitadinha, sou uma minoria, um oprimido e bla bla bla. Reage, porra! Não há movimento que intervira pelos teus direitos do que tirar a bunda da cadeira e cruzar portão á fora, á procura de algo que te faça no mínimo, se sentir alguém importante. Digo pois, não é meu sonho ser atendente de cafeteria, mas sim porquê vale a pena ter uma correria num dia todo, fazer tapiocas e cafés caros, pra ouvir de clientes "parabéns, estava ótimo".
Fazer o que gosta, digo, trabalhar no que gosta, é coisa pra gente esforçada e com foco. Já viu alguém dizer "quando eu crescer, quero ser arrumadeira num motel"? Pois bem. Eu sou uma pessoa sem foco, desligada, distraída e com deficit. Eu não tô me pondo pra baixo, tô falando a verdade, tô desaba(fa)ndo. Uma coisa é clara, tudo está em declive daqui pra frente ** - Porra Josh, você até parece que estava prevendo os meus dezoito anos. Mas quanto mais eu penso que caio, estou sempre de pé. Meio curvada, de péssima postura e de péssimo vocabulário, mas sempre orgulhosa o bastante pra não meter uma faca no peito, olhar pro espelho e dizer mentalmente "obrigada por ser quem você é".
Sabe porquê eu aceito essa condição imbecil? Simplesmente eu tô acomodada... Tô ocupada demais resolvendo a minha vida e, já que você não tá afim de olhar pra minha cara, de falar direito comigo, de conversar feito homem olhando nos meus olhos (que te olhariam com a mais terna compreensão do mundo), tá bom! Tá tudo bem. Você também tem a merda dos seus problemas, a Marina tem os problemas dela também e eu faço tripas, coração, pra manter ela de pé. Assim como eu tiro força do lugar inimaginável (pra não falar, do ânus), pra manter minha mãe um pouco feliz. Vale a pena me sacrificar por elas, e, ainda que não valha a pena, morrer de amor por você, eu morreria. Eu daria tudo pra minha felicidade ser sua também, e te dar toda força do mundo, pra te ver sorrir, forte e viril, gente grande. Mas ok, continua fazendo mal uso do meu amor. Talvez seja um brinquedo que você não sabe usar direito.
O bom de tudo isso é a falta de arrependimento. Ele vai se esvaecendo, se esmigalhando igual farelo de biscoito velho, até que não está mais ali, tipo dormir todas as noites, ás três e pouco da manhã e perder a hora dos compromissos que você tem de manhã. Foda-se. Já tá tudo errado, vamos foder mais ainda, o que eu tenho á perder? Nada.
Eu quero respirar... A tremedeira da noite passada ainda tá correndo, a adrenalina. Fiz coisas demais, me desafiei e cumpri minha parte. Satisfatório? Nunca... Pra mim, nunca o suficiente. É um lema, lembra? Never Enough. E vai dar certo? Também não sei. Mas que eu vou estar com sangue nos olhos e punhos cerrados pra bater de frente e esmurrar mais duzentas pontas de facas, isso sim, eu estarei. Eu não desisto. Sou teimosa demais, ansiosa e curiosa demais. Tô afim de virar a página e acabar esse capítulo logo.
É... E eu que pensei que ia ficar tranquila com quase dois mil reais na conta. Pois bem, dinheiro não traz felicidade, piorou, tranquilidade. Dinheiro emprestado, né? Grande merda.


** Verso de "Like Clockwork", Queens of the Stone Age.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Arroz de Forno Feito no Microondas

*Texto escrito no dia 9 de Janeiro de 2015

Foi uma semana estressante pra mim, aliás, está sendo. Victor não me responde, simplesmente visualiza minhas mensagens e tá tudo certo. Estou sem internet, tenho uma entrevista de emprego marcada pra esta manhã e, nem sei do que se trata, pois estava na lan house e agendei bem na hora em que meus créditos iam se acabar. Fora meu pai, que me ligou dizendo que a tal empresa, não a terceirizada, mas a qual eu trabalharia se passasse, disse que eu devia entrar em contato com ela e mais algo de entrevista no dia 13. Puta que pariu, se já não bastasse meu pai, que não sabe nem anotar um recado, pegar um número que seja, tem também a porra do tempo e do dinheiro que perderia indo lá pra ouvir "sua entrevista é só dia 13". Mas eu nem sei por qual cargo irei lá reivindicar. E ainda tem o maldito resultado da faculdade, que eu não sei se passei, não sei quanto de desconto eu ganhei... Não sei de nada. Não consegui acessar o site pela lan house. Lugarzinho escroto.
Por um lado, as ressalvas da semana tem sido meus livros, meus cigarros e... Acho que os dias que gastei muita grana do meu vale refeição. Comer bem é uma dádiva, mas não dura muito pra quem é gordo, tem ótimo paladar e ainda quer ser metido a rico, sendo peão. Estou engordando, sabia? E não como absolutamente nada de comida. Arroz, feijão, não sei mais o que é um bife... Que delícia, me deu água na boca. Pois bem.
Cheguei em casa na esperança de que meu modem estivesse com bom sinal. Nada feito. Há dias que o sinal dsl anda piscando freneticamente, coisa que não devia fazer. E liguei umas 20 vezes na central de atendimento do telefone, e eles fizeram teste, marcaram visita técnica (pro horário que eu estaria no trabalho), e graça a minha SUPER inteligência, marquei uma visita exatamente na porra do horário em que eu estarei na minha suposta entrevista esta manhã... Parabéns, Beatriz. Eu não vou ligar lá de novo pra ouvir musiquinha alta e estridente no ouvido. Estou com preguiça, e nervosa, tremendo.
Como o modem não funcionou, larguei tudo aqui: fios, alicate, tomada, computador... Larguei. Antes que eu perdesse o tesão de terminar "O Inferno de Gabriel". Mas não sei que caralho fui fazer lá embaixo que me lembrei bem na hora, do meu pai me dizendo pelo telefone hoje a tarde "...e passe minhas camisas, não tem nenhuma pra eu ir trabalhar". Ah, meu Deus, ele tem tanta preguiça. Fui passar... No começo tava tudo bem, ou mais ou menos... Me irritei com o calor desse verão ridículo, me preocupei ao ver uma barata branca, morta debaixo do buffet, pois, se há um filhote, deve haver um criadouro ali bem perto. E pra acabar de foder, uma borboleta, mariposa, morcego, sei lá que desgraça era aquilo... Gigantesca e assustadora, estava na parede da escada. Porra, eu tenho horror á insetos, principalmente dos que pairam no ar de alguma forma... Aranhas, baratas, mesmo sem asas, baratas... Caralho, como eu tenho medo de barata, na moral.
Desci as escadas, agachada, pra ela não me notar. Deu certo. Fui passar a roupa e como disse, estava irritada com o calor, suando feito uma porca. Passei uma, passei duas e pensei "como o Victor deve estar?", olhei pro meu vestido que, já havia escolhido para usar nesse domingo que sairia com ele, ou vou sair, já não sei mais também... Passei três, bati com fúria e fervor, ambas as mãos fechadas em murro na tábua de passar e joguei o ferro. Que ódio! Vidinha de merda, de passar roupa pra esse idiota! Que raiva que eu estava do meu pai. Do Victor, do mundo, do meu emprego, da incerteza da entrevista e principalmente, de mim.
Terminei de passar as camisas com certo amargor na língua. Já tinha dado chilique no quarto, antes de descer e ver a borboleta-morcego e antes de constatar que o modem ainda estava a mesma merda. "Joga uma barata na minha cabeça, sério." - Pedi a Deus. Ao ouvir o barulho dos morcegos (de verdade, ou não) dentro do forro do quarto, recuei na parede, fechado as janelas e olhando em volta "tá, eu tava mentindo, não faz isso não". Não tinha uma só coisa que eu tenha resolvido nessa semana. Foi o que disse pra mim quando pensei no boleto vencido da primeira parcela da faculdade, no telefone do advogado dos meus pais, na matrícula na universidade nova, no meu bilhete escolar perdido e no vale transporte da empresa num cartão fantasma que não conhecia. Tanto dinheiro, cara, quase seis reais. Andar para o centro de São Paulo então? Era 5,80 duas vezes, mais 3,50 duas vezes, senão mais. Dinheiro pra caralho. Praticamente, estava ganhando o salário pra ir trabalhar. Cancelei todos os shows que iria, até do cover do Rammstein que tanto queria ver... Cancelei. Não posso deixar de ter dinheiro pra ir trabalhar, preciso trabalhar, preciso ganhar aqueles 200 paus que perdi nas 3 faltas. Preciso pagar minha faculdade anterior, voltar aos cursos, resolver essa dívida, fazer uma nova (a matrícula... meu Deus, a matrícula...) enfim. Não quero falar mais dos meus problemas.
Tirei a roupa numa agonia sem fim e fui pra baixo do chuveiro. Encostei a cabeça na parede com as mãos no rosto, como uma narcótica nos filmes americanos, ou como uma apaixonada qualquer que fica ali debaixo d'água remoendo seus sentimentos não correspondidos. Em parte, sim, eu era uma apaixonada doente mas quase correspondida. E quase uma narcótica... Pra sair de lá pensando em fumar quinze cigarros, se não for narcótica, eu não sei o que é. Me lavei, o rosto com mais intensidade, com aquele sabonete que promete tirar cravos e espinhas, conforme minha pele está cada vez mais estourada de acnes. Quando saí, me senti insignificavelmente mais calma, mas já era alguma coisa. Vesti minha samba canção sem calcinha, minha blusa cinza favorita de alças sem sutiã. Queria estar á vontade, ainda que em casa, eu não me sentia mais assim, há muito tempo.
Dei uma olhadinha na barata branca, na borboleta no pé da escada, voltei pro "quartinho", apaguei a luz e cruzei o corredor pra cozinha.
Andei lendo muito Bukowski. Ao entrar a na cozinha e começar a tirar as coisas do lugar pra poder limpar, lembrei-me de uma trecho que passei os olhos correndo quando recebi o livro pelo correio e o folheei. Dizia algo como comparar a personalidade e a paz de espírito das pessoas, vendo o estado da cozinha. Puta que pariu, Buk! Se você visse minha cozinha, iria me matar. Bem que ele disse que homem com cozinha bagunçada era uma coisa, mas mulher... Era uma caso sério. Só me lembro disso. Não li o resto. Eu ia fazer arroz de panela normal, pois o de panela elétrica era horrível. Mas vi o fogão... Que coisa nojenta e deplorável! Caralho, vou ter mesmo que limpar isso aqui? E meu arroz, vai demorar tant... Tem arroz na panela elétrica, ainda morno... Eba. Então, sim. Tirei tudo, a panela da pipoca de ontem, a frigideira de 2 meses do frango do meu pai e as grades e os disquetes. Limpei sem vontade mesmo, até que dei uma esfregadinha mas nada sério. O pano da pia, aquele estranhozinho, fino e colorido que compramos pra secar depois que lavamos louça, estava seco e sujo, como tudo ali em volta. Sinto vergonha de dizer, aliás, escrever isso mas tô pouco me fodendo. Não trago ninguém em casa mesmo, por essas e muitas outras. Sabe quando você o enxágua quinze vezes e ainda sai água com alguma cor? Estava assim. Mas bastavam 4 que ele já melhorava. 4 e vai lá passar no fogão, pra tirar o detergente e o limpador multiuso. mais quatro, mais quatro, umas seis vezes. Botei tudo de novo, as grades, não lavei os disquetes, limpei o vidro igual minha cara e coloquei a panela de pipoca e a frigideira. Estava bem melhor, ou bem menos pior.
Comecei a dar um jeito em tudo ali dentro. Temperei o frango que já estava virando o ano conosco, com balsâmico, páprica e açafrão. Fervi o feijão, que já estava cheirando azedo, como a geladeira toda. Troquei as tampas das panelas que estava na geladeira, com esse feijão e um leite em pó com água que meu pai insistia em fazer pra beber... Era horrível. Logo mais teríamos qualhada. E tudo ficou bem menos pior. As louças com água, coisas fechadas na geladeira, nem tudo estragado. Cheirei o molho parmesão de não sei quantos meses, talvez três, e estava divino! Coloquei no pratão de arroz que fiz. Quem sabe milho? Será que tem? Só tinha molho de tomate. Seria uma boa, já que o feijão não me agradou. Tem queijo ralado, um aberto. Mas tem um fechado e é melhor jogar esse outro fora, não custa nada e, o outro está dentro do prazo de validade. Coloquei, quando vi o resultado, até fiquei feliz. Parecia um arroz de forno, daqueles que você coloca molho branco por cima e gratina com queijo ralado e depois mais molho e mais queijo! Felicidade, comer arroz.
Até um suco tang de laranja, o meu favorito, eu achei pra fazer! Mas morreria de pneumonia com a pedra de gelo que estava dentro da garrafa de água pra fazer suco. Meu pai e essa menopausa dele. Pronto. Deixei até a água e o café postos na cafeteira pra ele fazer daqui a pouco de madrugada, com um bilhetinho idiota, avisando de que temperei o frango, fervi o feijão, não se esqueça de tampar as coisas, ferva o leite, e não me lembro o resto. Bom trabalho, Bia.
Subi, tchau barata branca, tchau borboleta-morcego. Tchau? Não! não venha me saudar, porra! Saí correndo corredor a dentro, quase que o prato se espatifa todo no chão com o meu arroz, e meu suco gelado. Girei a maçaneta no desespero, enquanto a luz oscilava nas minhas costas, por causa das asas de drácula daquele monstro voador. Entrei no quarto na maior penumbra. Pensei numa barata correndo na parede e quando acendi a luz, vi uma heroica lagartixa grudada na parede. Linda, fique a vontade.
Sentei na cadeira do computador, de lado pra ele, trêmula pelo susto, e fui comer meu arroz. Beberiquei o suco, estava com fome... E estava feliz por saciá-la. Pelo menos algo aqui e agora, tinha que se dissipado. Ficou perfeito... Faltou o milho mas, estava gostoso mesmo assim. Eu busco sempre pelas coisas perfeitas mas nunca as consigo pra mim. Como o milho pro arroz. Como o Victor. Mas estava bom, mesmo assim.

P.S.: Obrigada, Hank. Essa é pra você, também te amo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Coisas que não devem ser ditas (Inclusive, eu falando de amor)

Já reparou nas coisas que não deviam ser ditas em hipótese alguma?
Pensa só: Omitir é bem mais gostoso do que mentir pois, se você chega na sua amiga vagabunda que não fala com você há mil anos e pergunta "você está bem?" e ela "SIM, ESTOU, AIN QUE SAUDADE DE VOCÊ" e você fica quieta. Simplesmente porque na tua cabeça tá rodando umas frases do tipo "vai se foder, sua cadela maldita".
Tem coisas que é mais legal não dizer, tipo o quanto você gosta das pessoas e o quanto você não gosta delas também. Dizem por aí (eu não sei disso, fiquei bem claro!) que você consegue uma pessoa mais fácil quando você á esnoba, nem dá bola. Pois é, acho que tem um pouco de verdade pois eu acho que é falta de surra na infância, que eu acabo me apaixonando por gente que tá pouco se fodendo pra mim. Na verdade é a falta de pai e o costume habitual de ser ignorada. Minha mãe e meu pai até hoje conversam comigo sem me olhar nos olhos ou me interrompendo pra falar de algo que não tem nada a ver com o que estou falando. Sinto-me invisível, mas claro, ninguém quer saber disso.
Tem posts no facebook que jamais deveriam ser postados. Indiretas, fofoquinhas, coisas idiotas e irrelevantes mas que fazem diferença pro nosso ego de bosta. Ir lá e meter o pau em alguém, numa raça, religião, qualquer cultura ou grupo de massa, é ótimo! Mas só pra você. Imagine, as pessoas curtem e outras comentam que o que você disse tá errado, que não deveria ser dito. Porquê não deveria? Porque ninguém quer saber. Porque é legal estar em paz com todo mundo e criticar é coisa de gente chata.
Eu não tenho muitos amigos e sou orgulhosa por isso. Falo na cara de quem precisar, "olha, não é assim" ou "sim, é assim mesmo nessa porra, se quiser, porque se não quiser, vai se foder". E sim, são meus amigos mais próximos. Na verdade a gente sempre fala o que não é pra falar e não fala o que era pra falar. É tipo esquecer o que tem que lembrar e lembrar do que tem de esquecer! Tipo lá no meu trampo, a fofoca corre solta, até demais. Já até me envolvi (pelo menos eu desconfio que seja só um alarde tosco da minha gerente) em um boato pela loja, fora da franquia onde trabalho. Porra, nem fiz nada, só peguei um telefone de um cara que nem deu em nada. Claro, é frustrante but, estamos aí. Seria ótimo não dizer que eu te amo. É, eu tô falando com você mesmo, filho da puta número dois, que me fez de amante por um tempo e nem me levou pra cama. Sim, eu amaria não poder falar nisso mas eu tô meio angustiada de ficar guardando pra mim enquanto eu leio um romance de enredo muito bem elaborado que me faz lembrar nós dois. Não, não tem nada de puro ou parecido conosco. Eu só queria gritar no topo de uma montanha, pra ver se Deus me ouviria, e então perguntaria: Como é que eu pude me apaixonar por um ser desses? Aliás, por quê eu ainda o amo? Por quê não posso tê-lo pra mim? Por quê ele não poderia tomar juízo comigo? São perguntas tão distantes quando o por do quê, tão distantes quanto eu e você.
A resposta pra essa pausa aí das pegações, do sexo desenfreado (exagero da minha parte), do tesão completo, é culpa sua. Eu não consigo mais gostar de ninguém porque eu ainda tô parada na nossa história que nem se quer teve um fim decente. Foi um filme mal produzido e ainda cortado nas melhores partes. Não é porque não fui pra sua casa naquela tarde da sua folga, não... Não foi por eu não te dito que te amava, mais vezes. Porra, era verdade, e é verdade até hoje! Não me pergunte porquê mas, caralho, eu simplesmente te amo... Completamente.
Você nem deve ter lido o que eu escrevi. Provavelmente não vai ler isso aqui também, mesmo que eu crie coragem pra pedir e convencer á Marina pra meter o louco e te enviar por mensagem. Meu Deus, o que é que eu estou fazendo? Tô fazendo o que eu devia ter feito antes: Ter esfregado na sua cara com todas as letras, incertezas e medos, sim, filho de uma puta, eu te amo.
São coisas que não deveriam ser ditas, se quer pensadas. Sabe, pensamento atrai. Eu dei a puta cagada de encontrar seu telefone anotado no meu cpf, e de ter todos aqueles pensamentos aleatórios realçados, enquanto leio "O Inferno De Gabriel". Este livro tá me deixando louca! Eu penso em você, em trechos que me remetem á pecado e perdão... É burrice ou loucura, tudo isso. Estar dizendo tudo isso, pensando em você, mas eu não consigo evitar. Não consigo deixar de perguntar de ano em ano, pra algum amigo em comum que tínhamos, se você está bem. Claro, na neura, acabo perguntando se você ainda está namorando... Eu sei que sim mas gosto de como a verdade me atravessa o peito como uma lança em brasa.
Pra te falar a verdade, essa porra dessa crônica nem era pra falar você. Mas eu pensei bem, não consegui me concentrar na ideia central de falar sobre o que a gente não podia dizer em todo lugar, na vida assim, cotidianamente. Eu queria na verdade, desabafar de quanto eu não gosto do meu pai, agora que moramos só, que ele só tira o tempo que tem pra me criticar. Desabafar sobre como minha mãe é chata pois só liga pra mim procurando por atenção exacerbada. Desabafar como eu queria encher de tapas a cara da minha gerente e falar o quanto ela é ridícula e infantil, me tratando com ignorância. Mas eu simplesmente não consigo me concentrar. Nem meus amigos falsos que eu ainda engulo, fora os outros que fazem mal pra mim, mas nem é por mal e sim coisas da minha cabeça, consegue me tirar mais do sério do que você.
Não te tirei da cabeça por nem um dia. E do que adianta? Eu sinceramente não tenho esperanças de que um dia eu posso voltar a ao menos de ver, quando na verdade, eu queria te dar um abraço. Já te falei que seu abraço é fofo? Me sentia nas nuvens, num cobertor felpudo e quentinho. Nossa... Sinto como se estivesse enlouquecendo, ou se a loucura já tivesse tomado conta do meu coração. Sim, é só nessa parte que você tomou conta. Graças a Deus e ao meu trabalho, e á todos os meus problemas, você não ocupa tanto tempo do meu pensamento mas, não sair mais daqui já é sacanagem. Já se passou quanto tempo desde que te conheci? Juro, perdi as contas e, também não me interessa. Parece que foi ontem que, estávamos nas escadas de emergência do shopping, você me dando arrepios, ora levantando minha saia pra espiar minhas coxas, ora metendo a mão em tudo quanto era lugar. E o pior de tudo isso é me lembrar das coisas que me fizeram te notar não só como um galanteador qualquer.. Não... Você sempre foi e sempre será mais do que isso.
Ás vezes me dá raiva quando eu falo bem das pessoas e elas não acreditam em mim. Acho que meio acontecia (e pode acontecer agora mesmo), de quando eu falava do que via em você, que os outros e nem você mesmo via. Os defeitos me encantam mais do que as qualidades, isso é consumado, uma das poucas certezas que tenho sobre mim. E os teus defeitos te fazem um homem lindo. Assumir coisas, sabe? Admitir, dizer! Dizer tudo o que não deve ser dito! Entende? Porra, até achei um sentido nessa merda toda. Mas do que adianta...? Eu estou sem sentido sem você.
Minha vida é um inferno, uma comédia ridícula onde eu, mesmo sendo personagem principal, sou badass no máximo das estrapolações dos limites. No melhor estilo de "Todo mundo odeia o Chris", eu vou dando risada da minha própria desgraça. Eu aprendi a ser assim. Aliás, eu mudei muito desde aquele tempo mas, acho que se você me visse, eu agiria como a mesma idiota de sempre. Com as mesmas mãos trêmulas, pupilas extremamente dilatadas e brilhantes, estômago doendo, pernas bambas e encantamento quase hipnótico, por você, sua barba, sua voz.
O que eu não deveria dizer mas espero que você saiba de qualquer forma, é que eu quero que você seja feliz. Você, mais do que ninguém, sabe que os heróis não podem ser, não conseguem ser egoístas. Já viu alguma herói se dar bem nesse quesito? Clark Kent jamais terá Lana Lang para si. O rei Arthur foi traído e ainda assim, Guinevere o disse em sua partida, sua despedida, "não se pode fitar o sol por muito tempo". Somos um sol um do outro. Eu não sei você em relação a mim mas, digo isso pois seria pretensão demais afirmar que eu sou o seu sol, ou que você é o meu. São controvérsias, mais do que isso, são coisas que não estão no nosso alcance de entendimento. Eu poderia escrever até meus dedos sangrarem e meus ombros trincarem (que eu tô sentindo isso, mais ou menos), mas eu jamais conseguiria te dizer exatamente tudo, te explicar ou responder perguntas. Eu já te falei... Eu larguei de mão pois eu queria que você tomasse jeito com a moça e cuidasse direito dela. Mas eu sou egoísta, sou burra, sou louca por você e eu quis falar tudo isso. Nós somos uma história que não deve ser contada. Você não me ama, se quer deve se lembrar de alguma coisa, ou fez questão de apagar, ou pelo menos de mentir pra si mesmo que não dá a mínima pra mim, pra gente.
Confesso que ainda tô esperando, até sonhando acordada com a hora que eu vou ver uma mensagem ou ligação com o final 71 do telefone marcado no visor. E eu vou travar, congelar quando ouvir sua voz, e ficar mais idiota do que o normal quando falo ao telefone. Qualquer abordagem. Qualquer uma. Ainda espero. E eu não sei quanto tempo isso pode durar pois sou imprevisível, tanto quanto você. Acho que tô aprendendo a me virar, ser além de independente, imponente como você. Mas eu ainda estou aqui, com o seu nome sendo uma fraqueza inevitável aos meus ouvidos e pensamentos.
Queria que você quisesse respostas. Eu queria que você me quisesse, um pouquinho que fosse. Eu quero, quero e muito, você. E eu quero é que se foda se isso pode ser ou não dito.

Carta de Natal

*Texto iniciado em meados do dia 20, terminado em 30 de dezembro de 2014

A carta não é pro papai Noel. Nem pra Deus, nem pro Jorge, nem pro Flávio... É um pedido idiota ao vento, aquele tipo de desejo que a gente tem mas não conta pra ninguém e aí decide escrever numa madrugada fria de dezembro.
Meu caro... Destino, regente da vida, pessoa ou coisa que me vigia e ou conduz essa porra toda,
Eu queria a casa da Barbie com boneca.
Sim, eu tenho dezoito anos e ainda estou esperando esse presente. Eu também queria um notebook e uma impressora, pra que eu pudesse escrever meus livros e imprimir, não só eles mas também minhas letras de músicas, pra eu começar a estudar um repertório. E eu queria poder não desejar um celular novo. Não quero me encaixar nessa geração besta que fica vidrada numa bosta de cinco polegadas.
Quero que você me ajude a resolver tais pendencias como minha conta corrente, conta poupança, minha matrícula na faculdade, os onze livros que eu ainda não li e a vontade que eu tô de comprar mais, minhas tatuagens, minha casa (se é que um quarto na Armênia pode se chamar de casa...) e minha vida amorosa, se possível. Acho que a gente não pode ser feliz em tudo mas, eu ainda não achei no que sou boa de verdade e nem porquê merda eu vim ao mundo. Não sei o que é amor, tampouco felicidade. Sei o que é ficar bêbada, pegar uns e outros, ouvir umas besteiras ao pé do ouvido, uns elogios que se dão só pra eu abrir as pernas mais rápido e claro, as mãos bobas. Mas nem isso tá me satisfazendo, caralho... Ah, desculpa o palavrão.
Eu queria também saber aonde é que eu estou. Sim, moro numa cidade ridiculamente pequena e sem futuro, morta de tão pacata, comparada ao fervor inebriante do centro de São Paulo. Mas eu não sei exatamente aonde estou. Sabe o jogo da vida? Não, eu não quero ele, também não quero um playstation. O jogo da vida, deve ter pecinhas e um tabuleiro aonde jogamos um dado ou rodamos a roleta pra saber em que direção seguir e quantos passos devemos dar. Sinto que, no jogo da minha vida, eu sou o pião jogado no meio do nada, rolando incessavelmente no meio do tabuleiro, não indo pra lugar nenhum, como se nada fizesse sentido. Um pino amassado, fedendo a cigarro Free e perfumado de morango e um perfume doce.
Eu costumo dizer que sou a peça redonda do Tetris. Mas tô cansada de ficar falando que não me encaixo em nenhum lugar... Isso é tão idiota, me sinto minha própria refém, minha vítima e, vocês sabem (leitores, amigos, colegas, conhecidos, Princesa, mãe, pai, Billie Jean, Flávio, Jullie...) que a coisa que eu mais odeio no mundo, depois de hipocrisia, é a vitimação.
Anota aí: eu quero também me embebedar pra perder o cu na rua. Só não posso perder a hora no emprego, pois as coisas não estão boas. Você poderia me arrumar um emprego reserva também né? Faça eles devolverem minha carteira de trabalho pra que eu possa ir em algum entrevista, na moral. Tô sentindo que não vou durar mais dois meses lá.
Ah, pode crer. Um pedido importantíssimo! Eu quero voltar pras aulas de filosofia. Porra, sinto uma saudade imensa do meu professor e das conversas que tínhamos, dos assuntos que eram tratados nas aulas. E faz um favor junto também... Tira da minha cabeça essa coisa de que eu preciso me tratar.
O que eu preciso mesmo é tratar de ser mais filha da puta.
É o que geralmente acontece. Sabe, você é o que você come. Eu não bebo refrigerantes, laticínios, fast food, congelados, enlatados, não gosto de vodca... Sei lá. Nem tô me alimentando direito ultimamente... Talvez resuma bem: Eu odiava comer arroz-feijão todo dia e hoje eu me sinto a pessoa mais feliz do mundo quando me sento no restaurante e preço uma pratada de pedreiro com fritas, um bife e uma salada tosca de alface e tomate. Eu vivo retrocedendo... Por mais que eu não goste de tais coisas, eu sempre volto, sempre tô ali á disposição. Minha vida é um arroz com feijão e fritas.
E sobre os sentimentos, já que estamos falando de sabores, colocar o fel no meio dessa história pode parecer adequado. Eu era um ursinho Pooh, cheia de mel pra dar. Mas a vida é aquele carinha que te dá um biscoito e chuta sua canela, e pega o biscoito de volta e ainda sai rindo da sua cara. Amei pessoas, dois homens em especial que eu já me recuso dizer tais nomes e, amigos que nunca foram amigos, ou até foram mas por pouco tempo. E de tanto de doar, de tanto de dar, dar amor, atenção, nunca recebi nada em troca, se quer algo perto da reciprocidade, acabei ficando vazia. Espaço vazio cria pó, resíduos sujos, coisas impuras. Eis-me aqui, dezoito anos de "quero morrer", "quero me matar", "vida de merda", "sou uma fracassada", "sou feia" e outras mil negatividades.
Sabe, as pessoas dizem que eu sou louca, corajosa, pra eles essas duas coisas são parecidas mas pra mim não tem nada a ver. Eu faço o que dá na telha pelo gostinho de estar sempre correndo risco. Eu não tenho medo de morrer, pelo contrário, sempre busco incitar a morte aonde quer que eu vá. Andando pelo meio fio, a noite nos viadutos e passarelas, conversando com estranhos, correndo entre os carros em movimento, fumando três ou quatro cigarros um atrás do outro.
Sou daquelas que vai pular de um abismo de quatrocentos mil metros de altura, sem paraquedas, sabendo (e querendo mais ou menos) que vai se estabacar no chão mas tá morrendo de medo. Eu nunca tenho escolha sabe? Eu vivo pulando de penhascos todos os dias, parecendo o leão do mágico de Oz, aparentemente agressiva e valente, mas por dentro, uma puta bunda mole, medrosa.
Já disse também que tenho medo de solidão, escuro e barata né? Você poderia sumir com as baratas. O escuro não... Eu amo a noite e, cessar um sem acabar com o outro, é impossível. A solidão... Bem. Estou começando a acostumar. Talvez. Eu me dou um pouco bem, mas bem pouco mesmo. Isso explica mais o menos o fato de conversar sozinha, escrever pensando que alguém vai ler e acima de tudo, se importar, e todas as madrugadas mal dormidas, isso é, quando dormidas.
Se você puder me dar uma coragem sólida, eu agradeceria.
Aliás, quantas coisa sólidas eu queria? Escrevi uma crônica sobre apelos líquidos... Tudo vira água de lixo ou diarreia sabe? Eu juro que tento não reclamar mas tá foda. Se passaram dois anos e eu ainda não esqueci os dois filhos da puta e quando eu falo de amor, me dói o peito e sinceramente ás vezes me confundo. Não sei de quem ao certo estou falando. Se tudo que tocam, vira ouro, o que eu toco viram lágrimas. Eu ainda não aprendi a lidar com o fim das coisas. Não aprendi de fato que tudo na vida é cíclico. Ou talvez eu ache que tudo na vida, na minha vida, seja curto demais, pelo menos as paixões, as felicidades. Talvez seja por que eu dê mais valor e intensidade aos fins. Invés de curtir o momento, os beijos, as transas, os presentes, os abraços, as conversas rotineiras ou não, eu curto mais as fossas, as músicas tristes e as dores de cotovelo e estômago. E esses milhares de talvez... São as respostas de todas as minhas perguntas. Quantas perguntas! E infelizmente (ou não) eu sei a resposta de todas elas, só não admito ou tenho preguiça de encontrar, pois estão todas, aqui dentro de mim.
Quero poder continuar ajudando um pouco a galera que mora na rua. Queria ter a ombridade de comprar umas 20 marmitex e sair distribuindo pra galera desde o Tietê até a Armênia. Eu quero fazer tantas coisas, mas sou egoísta e mal resolvida. Sim, pois você jamais conseguirá mudar o mundo se não mudar a si mesmo, é clichê mas é fato.
Eu já não sei mais o que pedir. Somente pelo fato que eu realmente não quero mais pedir nada, apesar de tudo. Sei que tudo isso é um desafio, um jogo difícil, uma palhaçada e uma brincadeira de péssimo gosto, ma eu tô aqui. Ainda não tomei veneno, não meti uma faca no peito e nem pretendo.
Fica aí meus pedidos de natal. Tô jogando pro vento pois a idealização dos mesmos só depende de mim e de mais ninguém. O problema não é minha gerente, meu pai, minha mãe, algumas pessoas filhas da puta que eu (ainda) me importo, a solidão, nada disso. O problema é o ser vítima ou lutar de boca fechada. Não quero ser vítima, mas também acho impossível não chorar uma vez ao mês desejando sumir, sumir com os problemas ou sumir só eu mesma. O problema é não querer lutar e ficar vegetando na cama, programando o celular pra 20 minutos mais tarde, despertar. O problema não é eu... É o que fazer comigo mesma. E vesparinamente falando, eu não sei o que fazer comigo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Primeiro de Dezembro

Eu poderia muito bem datar isso aqui de "último mês de 2014", mas é um título e títulos devem ser bonitos e finos, elegantes.
Ao contrário do título, o meu ano não foi tão fino e elegante, piorou bonito. Eu posso resumir bem o que aconteceu: maior idade, faculdade, fracasso da faculdade, separação dos meus pais, mais um fardo pra minhas costas, muitas lembranças do meu primeiro """""*muitas aspas*"""amor"""*muitas aspas, mesmo*""", mais uma decepção, um emprego bem nada a ver porém, melhor do que trabalhar no mc donalds ou no call center, decepções, mais tentativas de suicídio, rejeição ao toque alheio,  algumas bandas novas, nenhum choro (isso é ruim, na moral...) e sei lá, muita distração, muitas perdas de senso, de esperança.
Meu maior medo é de estar perdendo tesão pra filosofia e literatura. Apesar de estar enterrada de livros, títulos muito bons até, eu ando muito lerda pra ler. Ok, desconsidere o que eu disse pois, não há coisa em que eu não seja lerda. Ando lendo bastante até, pra alguém que trabalha mais de dez horas por dia, gastando 3 ou 4 horas na estrada num ônibus de merda que cruza quilômetros e mais quilômetros... Mas não escrevo mais nada. Sim, estou morrendo de medo.
Iniciei um rascunho de projeto contando minhas histórias no trabalho mas, acabei empacando (já é o quinto ou sexto projeto congelado...) e nem as resenhas dos livros eu tô afim de fazer. Não quero acabar (inconscientemente) Assassin's Creed (O. Bowden) pois, eu sei que Ezio morre nesse livro. Não estou mais afim de ler (pelo menos por um tempo) "O inferno de Gabriel" pois é muito romance pro meu gosto. Não que eu tenha me identificado com os personagens mas, há algo em Julia e em Gabriel que me faz pensar em pecados, culpas e infernos pessoais, fora a paixão clichê e proibida, as descrições perfeitas de Reynard sobre toque, pescoço, beijos e coisas sem sexo que me excitam pra caralho...
Estou lendo também "Gabriel", de Claudio Parreira (Editora Draco), que conta a história do anjo Gabriel na terra enquanto tenta convencer uma prostituta de 17 anos á dar a luz ao filho de Deus. O mais foda, é ler Gabriel narrando as atitudes do "Supremo", com coisas do tipo "ele acendeu um charuto e bateu uma trinca de ases na mesa". Porra, Deus fuma charuto e joga carteado! Melhor ainda... (deixa eu pegar o livro e achar o paragrafo pra escrever aqui...)
Sim, porque repetir a volta do filho, numa época dessas, nada mais poderia ser do que um capricho de um ser entediado, cansado de jogar cartas e consumir charutos. Falta do que fazer, isso sim. Ou melhor, falta de foco no que fazer, uma vez que o mundo precisava e muito da sua intervenção. Mas o Supremo desde sempre escolhia suas prioridades, fossem elas sensatas ou não aos olhos dos anjos. Um tirano não precisa da opinião de ninguém.

 Isso só reforça meu pensamento de que Deus é um zoeiro que só gosta de ver certas pessoas como eu se fodendo. Porém, eu sou personagem principal de uma história e, personagem principal não pode morrer, nem se dar bem. Óbvio... A história tem de ser mantida num clímax eterno de problemas envoltos de problemas ainda maiores. Você já viu Clark Kent ficar com a Lana? Já viu ele ficar com a Louis? Já viu a Chloe ficar com o Jimmy? Já viu o Lex com alguém? AHSUAHS Brincadeira. Bem, podemos falar de vilões também, já que algo que não está me deixando mais é a coisa que minha gerente me disse. "Uma coisa que eu, a chefona e o pau mandado dela que tem dinheiro, percebemos, é que você é muito seca com os clientes e até mesmo entre seus colegas de trabalho."
Tipo, fodeu. A primeira coisa que me veio á cabeça "CARALHO! LOGO EU, A RAINHA DOS CANALHAS E CAFAJESTES, A CRIANÇA DO CORAÇÃO PARTIDO, A DAMA DAS PAIXÕES NUNCA CORRESPONDIDAS, LOGO EU AQUI, SECA???" Pois é, caros espectadores, eu também não entendi nada. Vai ver que eu não faço muita fofoca, eu não faço brincadeira de péssimo gosto, não manjo de coisas da favela e nem nunca fui viciada em lança perfume... Enfim, essas coisas me fazem ficar seca. Fora que, o ultimo dia em que a minha Suprema me viu, eu estava péssima, cheia de dores no peito, lágrimas nos olhos e Guilherme na cabeça. Que inferno, que essa praga maldita do inferno veio morar nos meu pensamentos de novo! Eu também não faço ideia do porque. Talvez até saiba mas, eu não gosto de alongar o assunto.
Acho engraçado e curioso o modo em que eu estou amadurecendo e tal, e pegando uma coisa de cada um deles... Comprei um baixo, comecei a ler fervorosamente, escrever num estilo fixo de crônicas (com exceção de hoje, tô aberta pra uma conversa informal com você aí do outro lado), e comprei uma camisa do Led Zeppelin (tradução, tô afim de ouvir as b sides do rock clássico). Não, ainda não encontrei nenhum cara de moto, roqueiro sem aparência de roqueiro, com barba, alto, branco e magro, que me fizesse feliz. Aliás, essa imagem tá meio batida e mal explicada. Foda é você trepar com um taxista de trinta de cinco que curte uns rock e só saber o primeiro nome dele, e pior ainda é você ter o melhor amigo do mundo, que você também já pegou, but, não é mais apaixonada por ele e, vocês dois seriam o casal do século. Pois é.
Posso definir esse final de ano em duas palavras: Sem tesão. De escrever, de trepar, de cozinhar, de cantar, de estudar, de conversar, de dar explicações, de sorrir pra galera, de parar de beber e principalmente de fumar, de acordar cedo, de viver, eu acho. Eu tento todos os dias procurar a razão dessa tristeza toda e só chego aos velhos nomes, aos mesmo motivos torpes e ás mesmas desculpas e medos tolos. Muitas paixões mal acabadas, solidão, sem amigos e sem boy magia, sem mina gata, sem porra nenhuma. Sem paciência pra ouvir meu pai falando da vida sem graça que ele leva, das fofoquinhas do serviço dele (já não basta o meu, porra!) e sobre as raparigas que ele arruma por lá mesmo. Sem paciência pra ouvir minha mãe implorando por atenção, falando das coisas que ela precisa etc etc e sem vontade alguma de pedir arrego pro meu irmão. Eu estou com medo do rumo que as coisas estão tomando, sabe? Eu tô canda de ouvir o que as pessoas estão falando... Quando não falam da vida dos outros, estão afim de resolver minha vida, como se isso fosse possível com meia dúzia de palavras e todas elas repetidas: "vai passar", "ah, para de pensar nisso", "saia mais, vai curtir", "faça novos amigos, vá pra lugares novos" blá blá blá enfiar uma rola no cu ninguém quer, não é verdade? Desculpa, mas é assim que eu penso.
Não sei exatamente o que tudo isso é. Se foram erros e se eu preciso corrigi-los ou não, ou se foram simplesmente fatos que tinham que acontecer pra eu ficar essa merdinha com cara de buceta azeda todos os dias. Não sei mais se eu preciso de incentivo ou se preciso parar pra pensar mas, vou pensar mais no que? É, eu tô bem desorientada e eu precisava de um copo d'água, alguém que não se importasse com os meus palavrões, não me interrompesse que que realmente soubesse me dizer o que fazer e minhas aulas de filosofia de volta. Sei que posso encontrar esses três itens num lugar só... Só me resta o tempo.
Falta eu desencravar essas unhas. Falta eu lavar meu rosto com o sabonete clínico que comprei na farmácia para redução de espinhas. Falta eu dormir cedo, exatamente quando eu chego em casa e não vir ao computador. Falta eu dormir menos nas folgas e parar um pouco de virar noites na rua. Falta eu decidir o que eu faço com o salário... Como eu vou pagar a faculdade? Quando eu vou ter coragem de abrir a caixa de emails? Como eu posso não tomar susto ou sentir um mal estar no peito pesar quando eu ver as fotos das pessoas que se dizem ser minhas amigas? Como ver fotos do Guilherme sem querer metralhar a tela do computador? Como para de me fazer perguntar e viver normalmente como uma pessoa normal que gasta seu dinheiro como bem entende, como alguém que acha o máximo morar com os pais pois tem comida e roupa lavada (eu como fora e jogo minhas coisas na máquina de lavar)... Não pagar aluguel e graças a Deus, olhar o menos possível pra cara do meu pai. Se embebedar cada vez mais pra se arrepender no dia seguinte no trabalho, pois você está virada, de ressaca, quieta, enquanto seus amigos racham o bico da funcionária da loja que se veste mal ou não penteia ou cabelo, ou a que dá pra todo mundo, o cara que tem um carro e uma moto, e muito dinheiro, ah... Me ajuda.
Dormir é a melhor das alternativas... Mas é tão curto o meu tempo. Queria saber o que fazer. Pelo menos até o final do ano, até virar o ano, sei lá, a proposta é se manter viva. Com mais um fracasso, que não consegui parar de fumar, e resolver os fracassos já existentes de faculdade, cursos, estresse, cafés, cafeína, dinheiro, tatuagem e prostituição. Calma, esse ultimo item foi só pra embelezar o trecho. Afinal, somos títulos de um grande e tedioso texto. Temos que ser elegantes, bonitos e finos, pra encantar algum trouxa que esteja disposto a ler você por inteiro do que somente apreciar a capa e folhear as páginas.